quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Inclusão Digital X Processos de In/exclusão

Em recente noticiário O MEC divulgou a implantação, no início do próximo ano, de laboratórios de informática, em 9 mil escolas públicas urbanas que ainda não estão equipadas. De acordo com o órgão, cada laboratório será composto por dez microcomputadores, com estabilizador de tensão, uma impressora a laser e um roteador (equipamento que compartilha uma conexão entre os computadores, possibilitando comunicação via intranet e internet).
Dados mostram que, desde o início de 2007, o ProInfo expandiu o atendimento de 1,8 mil para 5,3 mil municípios, ampliando de cerca de 6,5 mil para 13 mil escolas equipadas com laboratórios de informática.
Estima-se que até 2010, cerca de 80 mil escolas da quinta à oitava séries que ainda não dispõem de laboratórios de informática devem estar equipadas. A programação prevê a inclusão no ProInfo de 20 mil escolas apenas em 2008. Estas iniciativas têm como objetivo promover a inclusão digital, principalmente à pessoas de baixa renda.

Problematizando a questão:
Me utilizo desta reportagem para levantar duas questões, através de uma análise pessoal embasada nas pesquisas de Maura Corcine Lopes em seu livro In/ Exclusão, nas tramas da escola.
  • Como compreendemos os termos inclusão e cidadania?
  • Inclusão digital promove inclusão social?
Inclusão Digital e Cidadania. A inclusão digital está lançada. Acesso à informação promove inclusão digital. Um excluído digital é e será ao mesmo tempo um excluído social.
Sobre inclusão, de modo geral, entendemos que basta estar dentro para deixar de ser um excluído. No entanto,  embora a inclusão seja lida como o oposto da exclusão, ela só existe se existir a exclusão, por isso da utilização do termo in/exclusão como sendo conceitos tão imbrincados que um é socialmente dependente do outro. De fato, só existe inclusão porque existe a exclusão, embora os limites que demarquem quem está dentro e quem está fora sejam muito sutis, mas quem está dentro só sabe que está porque existem os que estão do lado de fora, os excluídos e quem está do lado de dentro, com frequência luta para manter-se nessa posição, desconsiderando os que estão na posição inversa, formando-se aí um conceito de cidadania muito individualizada e egocêntrica, tendo em vista que não existe uma preocupação com a causa comum ou social.

De acordo com Bauman " o cidadão é uma pessoa que tende a buscar o próprio bem estar através do bem estar da cidade, ao contrário do indivíduo que tende a ser morno, cético ou prudente com relação à causa comum, ao bem comum, à boa sociedade ou à sociedade justa"

Nesse sentido, questiona-se as narrativas sobre inclusão digital que reduzem sua compreensão de modo que é entendida como sendo simplesmente uma forma de dar acesso ou disponibilizar aos sujeitos as tecnologias digitais. São iniciativas importantes, mas que por si só, não garantem inclusão digital. Parece que o que há aí é a invenção de um novo significado ligado à inclusão e à cidadania. Constrói-se uma nova configuração onde estes conceitos estão intimamente ligados à capacidade de envolver estes sujeitos numa aldeia global, articulando-se à discursos vinculados ao processo de globalização, redes de conhecimento e aprendizagem e rompimento de barreiras reais ou imaginárias que nos separam geograficamente.

Com frequência, quando ouvimos esses discursos sobre inclusão e cidadania, ouvimos também à expressão "para todos", até porque se assim não fosse julgaríamos tais propostas como seletivas ou injustas. Claudia Werneck, em seu livro Quem Cabe no seu TODOS, questiona quem seriam esses todos, da inclusão. Quem caberia nesse TODOS? Sem dupla interpretação, TODOS é TODOS e sabemos que ainda são tímidas as iniciativas governamentais com relação à essa proposta.

Feitas estas considerações questiona-se: A que cidadania se vincula o direito às tecnologias digitais? De que forma as iniciativas em favor da inclusão digital expressam interesses comuns ou a favor da coletividade?

5 comentários:

Professor Daniel disse...

Olá Elis!
Seu questionamento é sobre inclusão digital e cidadania é fantástico. Acredito que essas políticas tecnológicas servem muito mais para mostrar serviço frente às instituições financeiras internacionais que liberam a grana. Não há projeto consistente, não há acompanhamento, simplesmente colocam 10 máquinas na escola para o professor trabalhar com uma classe de 40 alunos !?!?!?
Aqui em São Paulo, a bola da vez é o "kit multimídia" que será instalado na sala dos professores. Com ele todos os nossos problemas acabaram...
Minha escola tem uma sala de informática onde só existe sucata. Levar os alunos para lá é um Deus nos acuda... nada funciona, os alunos ficam irritados, vira uma zona... Aí tem de se improvisar...
Um abraço, Daniel

Sógenes disse...

Oi Elis,
Eu também fiz um artigo em meu blog sobre o essa problematica da inclusão digital, onde presenciamos o governo distribuindo computadores como fossem cestas básicas.
Gostei muito do seu blog,sogenes

Fábio Adiron disse...

Elis

Ainda bem que olhamos para o mesmo lado !

Abraço

Fábio Adiron

Robson Freire disse...

Olá Elis

Grande artigo. Mas vamos lá seu questionamento quanto ao processo de inclusão é perfeito, o PARA TODOS nunca será para todos (infelizmente).

Mas que o caminho de viabilizar a inclusão através da escola é bastante interessante isso é. Minguem duvida do poder transformador de ações desse porte na educação. Ela nunca passará incólume diante desse processo.

Agora deveremos ajustar o roteiro para que ele consiga ao menos tentar ser PARA TODOS.

Beijos

Suzana Gutierrez disse...

Oi, Elis!

Estte sempre é um assunto polemico. Da minha parte, penso que inclusão/exclusão são graus da mesma coisa. Entre a plena inclusão e a plena exclusão temos inúmeras posições de qualidade / quantidade diferenciadas. Fica difícil saber onde termina a exclusão para começar. Inclusão.
Os equipamentos que pareciam trazaer a inclusão digital para a escola do Daniel, hoje, podem ser fatores de exclusão.
A coisa é dialética. Conforme a "bola da vez" vai mudando ( e ela muda muito rapidamente) a educacao continua correndo atras sem alcançar.

Bjssss